O QUE DIZEM HOJE ALGUNS É INVERSO

 

 

 

Título do texto: EM VEZ DE PRÓLOGO

Do livro: VIRGEM PEREGRINA NA DIOCESE ….

Autor: Cónego Mendes de Matos

Data: 1950

 

“A que vem e porque vem a lume mais este livro, no meio de tantos que estão cobrindo os escaparates das livrarias e carregando as estantes dos estudiosos?
A esta pergunta, legítima e fundamentada nas exigências da nossa natureza intelectual, responde com clareza impressionante a capa artística que envolve o livro.
Parece-nos, porem, que essa resposta não bastaria a curiosidade de todos os leitores, e decidimos responder a pergunta com algumas palavras que dessem ao leitor o sentido e a finalidade do livro.
Fátima é um mistério, cuja conteúdo, significado e projecção, só o tempo virá a revelar em toda a sua plenitude.
Julgou-se, a principio, que a mensagem que Nossa Senhora entregou aos humildes pastoritos da Cova da Iria, constituía apenas mais um favor do Céu, um daqueles divinos favores que iluminam os caminhos da nossa Historia, formam a traça fundamental dos seus acontecimentos, revelam a razão da sua grandeza, ciclopicados gigantes que foram os seus agentes imediatos, e descobre o segredo da nossa vocação universalista e dos triunfos sobre-humanos que cobriram e coroaram os trabalhos com que vingámos realiza-la.
Chamado a existência, evocado à sua soberania política por uma vocação apostólica, Portugal tem encontrado sempre em todas as horas difíceis, em que o heroísmo e a bravura são o preço da vitória e da glória, o auxilio esplendoroso, da Gloriosa Rainha dos Apóstolos.
A Conquista, a Independência e as Descobertas – o berço, a adolescência, a g1ória, – os passos, marcantes e decisivos, da nossa vida nacional, foram amparados, protegidos e orientados pela luz que brilha nos olhos dAquela que, por merecido título, veio a ser a Padroeira de Portugal.
Naquela hora de «apagada e vil tristeza» do ano de 1917, em que o esquecimento dos favores do Céu gerara nuns o temor e o susto e noutros a fraqueza e a covardia; quando os filhos de Portugal se batiam na Flandres e na África, em lutas de guerra que lhe fora imposta par aqueles que 1he haviam abastardado o nome e calcado as tradições, tornando calados os templos de preces e vazios os lares de pão; quando a paz andava perdida nas almas, o espírito morrera nas escolas e a justiça gemia nos tribunais, nessa hora de dor e aflição nacional que parecia sem remédio, do Céu desceu a terra de Fátima a Celeste Padroeira, Rainha e Mãe de Portugal, a entregar-lhe, por intermédio de três pastoritos – a inocência e a graça – uma mensagem de salvação. Ouviu-a Portugal inteiro com penhorado e emotivo reconhecimento. E os resultados vieram breve.
Vencidos, quebrados os esforços com que o inferno tentara malograr o sentido e a graça dessa mensagem, Portugal começou a desatar os movimentos da sua recuperação histórica, a caminhar nos trilhos das suas tradições, como que tocado daquela força divina que fez erguer do esquife o filho da viúva de Nain. E, favorecido por outro inesperado milagre, começou a erguer-se e a subir, com tal desembaraço e espanto do mundo, que hoje o olha como um oásis de paz no meio dos povos em guerra, e nimbado de um prestígio singular que o eleva acima das tristezas e mirradas depressões que a guerra deixou na pobre humanidade envidêcida.
Como foi isso possível?
A Cova da Iria que, geograficamente, não passa de uma depressão cavada no dorso adusto da Serra de Aire, hirsuto de azinheiras bravas, tornou-se, misteriosamente, a Torre de Marfim, a Estrela da Manhã, cuja Luz alumia todos os caminhos do mundo e chama e guia todos os náufragos, que se perderam no trágico naufrágio do ingente e temeroso cataclismo que abalou o orbe. A Cova da Iria, depois de ajustar os seus limites pelos contornos de Portugal, estendeu-se em proporções tão vastas, que invadiu todos os povos, todos os continentes, e Fátima é hoje o mundo inteiro. A Rainha do Céu que ali descera, deu em percorrer todos os seus domínios entre aclamações apoteóticas, no meio dos hossanas e ovações de todos os sectores da vida religiosa do mundo. Na própria língua que Nossa Senhora falou aos pequeninos pegureiros de Fátima, falou o Papa, o Vigário de Jesus na terra o Representante do Filho dAquela Senhora da Fátima, para A investir na gloriosa função de Padroeira do Mundo, consagrando ao Seu Coração Imaculado todos os povos da terra. E, depois, foi Ele, o Vigário de Cristo na terra, que veio, na pessoa do Cardeal Mazella, cingir-Lhe a fronte augusta da Coroa de Rainha do Mundo.
O universalismo de Fátima recebera a sua perfeita e definitiva consagração.
O velho Duarte Pacheco tinha de inspiração divina a nossa epopeia marítima, a expansão da civilização cristã pelo mundo, que o nosso génio, filho da nossa fé, criou e engrandeceu. Não pode ter outra explicação o universalismo de Fátima.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para que este novo universalismo?

 

Apenas, e está nisso a sua grandeza e a nossa responsabilidade, para completar a obra do primeiro.

 

O magno problema da hora presente não é só a conversão da Rússia, é também o da conversão da Europa. Apostasia da Rússia começada com Fócio, no século VIII, consumou-se no século XX por influência do Ocidente. O comunismo é filho de Marx, Marx é filho de Hegel e ambos são filhos de Lutero. O comunismo é a última etape, a derradeira consequência religiosa, política, económica e social do protestantismo. Da Rússia, disse Ventura Raulica que só se converteria com uma grande revolução. Essa revolução não, foi a que Lenine desencadeou com os seus sequazes, naquele trágico mês de Novembro de 1917. O comunismo mesmo, não é uma revolução no sentido original do termo; é antes uma deformação, uma deformação, uma degradação colossal, que pretende envolver todo o mundo. A revolução, regresso ao princípio, só pode vir do espírito, importa a recuperação do que se perdeu, da personalidade cristã da Europa e, se já não existe a Europa, da personalidade histórica do Ocidente.

 

Isto quer dizer que a Revolução deve começar nos povos do Ocidente, na conversão da Europa, pela íntegra aplicação dos princípios cristãos que a criaram para que não venha a rebentar do abismo das desordens a que o Comunismo pretende fazer descer o mundo… O Comunismo cairá, não pelo fogo das armas ou pela força das sublevações em massa, coisas, aliás, improváveis e insuficientes, porque o Comunismo é, antes de tudo e em tudo, o ateísmo em acção, o ateísmo levado a sua última consequência, mas pela efusão da vida cristã nos povos que a deixaram perder ou esterilizar na sua íntegra eficácia sobrenatural e humana. É essa a finalidade suprema da mensagem de Fátima? Não falta quem o creia e não minguam razões a justificar essa crença que é também uma esperança.

 

Mas, deixando ao tempo o encargo de desvendar toda a grandeza do significado e projecção de Fátima, importa a todos cumpri-la em si memos, dar-lhe a máxima aplicação na esfera da nossa vida individual e colectiva, afervorando a vida cristã, nas almas, nos lares e nas classes. Importa para tanto alargar e esclarecer o sentido imediato da mensagem de Fátima, as graças e bênçãos que ela vai espalhando, tornar conhecidas as glórias que iluminam e enfloram a querida Imagem de Fátima na sua peregrinação pelo mundo.

Não têm outro objectivo as páginas deste presente livro. Elas contêm apenas a narração de um dos mais interessantes e gloriosos episódios dessa longa e apoteótica peregrinação que a Querida e Miraculosa Imagem anda fazendo pelo mundo. Esse rápido e densíssimo episódio – de 13 a 31 de Maio do ano de 1950 – tão rico de graças e de bênçãos, tão quente de entusiasmos e de fervores, tão molhado de emoção e de sentimentos, não traduz apenas a devoção, o amor da Diocese …. pela querida Mãe de Fátima; exprime, por igual, o carinho, a generosidade, a ternura maternal de Nossa Senhora para com os filhos que nela vivem e trabalham. Poucos dias duraram essa viagem – 18 curtos dias. Começou na …., cerca das 23 horas do dia 13 de Maio, e findou em …., na tarde do dia 31 do mesmo mês. Percorreu a diocese em todos os seus concelhos, no meio de uma apoteose que Príncipe ou Génio, Herói ou Santo, jamais tiveram em terras da …. . A passagem de Nossa Senhora foi uma fulguração divina que encheu de luz muitas almas que andavam ceguinhas na noite da indiferença, algumas mesmo na escuridão da descrença; que verteu bálsamo de consolação em muitos corações pregados nos acúleos de grandes dores, queimados no braseiro do desespero; que temperou muitas vontades quebradas ao peso de uma vida de sofrimentos e de amarguras. Quem pode adivinhar o que foram essas Noites de adoração, com os confessionários rodeados de gente que há anos os esquecera? Não há pena que descreva o que foi a jornada gloriosa nos seus aspectos e realidades espirituais. Quem pode sequer suspeitar do que foi o Pentecostes de graça que caiu sobre as almas e as famílias da diocese?

 

Uma vaga de júbilo encheu toda a diocese, um ambiente sobrenatural invadiu todas as freguesias, um ardor colectivo incendiou todas as almas, sobretudo as dos homens que deram, nesta ocasião, prova de uma devoção profunda, corajosa, para tantos inteiramente inesperada.

 

Por tudo isto e pelo mais que se adivinha, a Peregrinação de Nossa Senhora de Fátima pela diocese da Guarda constituiu, sem dúvida e sem injustificado chauvinismo, um dos mais interessantes e expressivos capítulos do culto de Nossa Senhora em Portugal.

 

A Diocese …. tem na devoção a Nossa Senhora uma tradição que nenhuma outra logra igualar. A proclamar esta verdade aí estão os magníficos monumentos graníticos que à Celeste Padroeira se erguem, majestosos, na ….., no ….., na ….., em ….., na ….., em ….., e as manifestações que frequentemente em redor deles se produzem e a devoção fervorosa e constante que os cerca.

 

A viagem da Celeste Peregrina fica sendo um novo monumento, o melhor e o maior, apenas monumento que o tempo pode gastar e fazer desaparecer.

 

O esquecimento, observou Mons. Bougaud, é uma das grandes misérias do homem. É verdade. Os maiores acontecimentos da história, as mais apaixonadas afeições do coração, os factos que mais fundamente se vincaram na nossa alma passam, esfumam-se, apagam-se, esquecem com o tempo.

Por isso, em todos os séculos e sob todas as civilizações, o homem se empenhou numa luta titânica, sustentou ciclópicos combates contra o esquecimento.

 

 

Este livrinho quer ser apenas um episódio dessa luta contra o esquecimento, quer perpetuar as manifestações com que a diocese …. demonstrou o fervor da sua devoção à querida Mãe de Fátima e fazer chegar os ecos desse amor às gerações vindouras, para ao seu calor se aquecerem, e à luz do seu exemplo se edificarem.

 

O relato teve de ser conciso e rápido – pinceladas que esboçam um grande quadro, linhas que estruturam uma majestosa catedral: simples notas de reportagem redigidas à pressa na língua de Serpa e com uma vida de lazeres, e sem preocupações de um dia virem a ser publicadas em volume.

Talvez algumas freguesias se julguem com direito a uma referência mais larga e encomiástica. É possível que alguns episódios da linda e apoteótica jornada fiquem omissos, perdidos para a posteridade.

 

 

Confessamos que empregámos todos os meios, esgotámos todos os recursos para que nada de importante ficasse esquecido.

 

Pedimos, instámos, empenhámos os melhores esforços para que nenhuma omissão se desse.

Mas o nosso empenho não encontrou sempre a resposta que merecia o assunto sobre que ele incidia, e esta circunstância explica certas deficiências que nós, mais que ninguém, lamentamos. Mas o que fica, o que se conta e narra, compõe uma epopeia de excelsa grandeza, de ressonâncias eternas, em cujos cantos se afirmam, em desafio, o amor da Diocese por

 

Nossa Senhora e o amor de Nossa Senhora pela Diocese.

Aí vai o livrinho, como foi possível compô-la sob o olhar bendito da querida Mãe do Céu. Vale sobretudo pelo muito afecto que nele pôs a modesta pena que o escreveu.

Que ele possa fazer florir nas almas dos que lerem as suas páginas, as rosas da devoção e do amor para com Aquela que é hoje, mais do que nunca, a nossa Esperança e a Esperança do mundo.”

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